Vídeo em salas de aulas presenciais e virtuais

A leitura do mundo precede a leitura das palavras.
Paulo Freire

O mundo em que vivemos é permeado por imagens que nos são apresentadas pelas revistas, jornais, cinema, TV e Internet. Conhecemos o mundo através dessas imagens: viajamos pelo Butão sem nem sabermos onde fica, opinamos sobre fatos que aconteceram na Siria sem os termos presenciado e conhecemos os outros através de uma tela. As imagens, estáticas ou em movimento, mediam nossas relações e nosso conhecimento.
Vemos – lemos – um mundo mediado. Mas as imagens que nos chegam através dos mídias são produzidas com propósitos de informação e comunicação perante os quais nem sempre nos posicionamos como leitores competentes. Somos expectadores consumidores de informação: esta é uma condição embutida nos produtos de mídia.
A pretensão aqui é chamar sua atenção para aspectos da linguagem de vídeo e da sua utilização enquanto objeto de aprendizagem, e as possibilidades de sua produção por professores considerando as possibilidades advindas das tecnologias digitais.

Formas de Linguagem
A forma de linguagem utilizada preferencial mente nos ambientes EAD é a escrita. Geralmente os temas abordados estão na forma de texto escrito. Poucas imagens são apresentadas. As interações são preferencialmente na forma escrita como apontam Costa e Marins (2012), e é a partir dos comentários e tarefas escritas desenvolvidas pelos cursistas  que se estabelecem as avaliações de aprendizado dos mesmos. Desta forma evidencia-se o domínio da palavra escrita sobre outras formas de linguagem no ambiente EAD e em outros ambientes acadêmicos, pois é com  ela que se desenvolve a abstração, o rigor e a lógica.
Mas é interessante pensar que o ambiente de aprendizagem à distância se projeta preferencialmente sobre uma tela, originalmente domínio de imagens em movimento.
O que nos leva a seguinte questão:
O papel do vídeo no ambiente EAD resume-se a ilustração de conteúdos, considerando seu aspecto motivacional, ou ele pode assumir outros papéis?

Linguagem de Vídeo
Moran (1995) diz que o vídeo explora o ver e que este está, na maior parte das vezes, apoiando o falar, o narrar, o contar histórias. É através da fala que o vídeo se aproximaria do cotidiano, de como as pessoas se comunicam habitualmente. E este caráter de familiaridade da fala no vídeo se expressa na forma de narrativas, gênero muito familiar, pois vem expresso na voz das mães que contam histórias para os filhos, nos grandes romances dos livros, nas telenovelas ou nas maiores bilheterias do cinema. Elas contam trajetórias plenas de emoção, confrontos, desafios, superações…
Méliès passou a utilizar a narrativa no cinema e transformou registro de informação em
Sétima Arte, mesmo não tendo o som da voz nas falas de seus personagens. Narrativa é gênero literário que migrou para o teatro e de lá migrou para o cinema, ou que migrou para o Rádio e de lá migrou para a TV. Do cinema e da TV migrou para as telas dos computadores, celulares e  tablets, contando e recontando histórias.
Ao observar os ritmos da TV que molda nosso cotidiano, Moran (1995) afirma que “a lógica da narrativa não se baseia necessariamente na causalidade, mas na contigüidade, em colocar um pedaço de imagem ou história ao lado da outra” e que esta seria uma fórmula adaptada ao homem contemporâneo, mais instável, mais dinâmico.
Desde os irmãos Lumière até a TV e cinema de nossos dias, a narrativa baseada em imagens transformou-se, subdividiu-se em estilos, especializou-se.  Suas formas de fazer se baseiam na conjugação de diversas linguagens:  visual, falada, musical, escrita e no caso de vídeos produzidos com finalidades didáticas, também linguagens gráficas, combinadas para atingir nossos sentidos, e assim  fornecer informação. O produto final de vídeo pode seduzir, entreter, projetar-nos por outros tempos e espaços.
As narrativas em vídeo seriam então excelentes interlocutores didáticos na apresentação de conteúdos de História e de histórias das outras ciências. Mas e em relações às disciplinas técnicas?

Edutainment
O conceito Edutainment conjuga educação e entretenimento, os produtos de vídeo que o seguem baseiam-se na narrativa para a construção do seu design, utilizam recursos de linguagem oriundos dos vídeos de entretenimento, buscam a afetividade antes da razão, e apoiam-se em teorias psicológicas que apontam o lúdico como facilitador de aprendizagens, sendo este o fator que mediaria as aprendizagens a partir dos vídeos. O Edutainment produziu especializações que podem ser exemplificadas através de diferentes canais de TV: Discovery Channel, National Geografic, History Channel, mídias de padrões internacionais. É interessante observar como se faz a construção do vídeo como objeto de entreter (para seduzir) e educar (aprender). A fórmula combina, através de uma narrativa dramatizada, elementos de informação através de voz de autoridade (geralmente uma entrevista), recursos fotográficos, grafismos, pequenos textos, animações, som incidental e música. Se você conhece os canais de TV, é capaz de reconhecer estes elementos.
Para saber mais sobre princípios gerais do edutainment e outros tipos existentes, clique aqui.  

Formas de utilização de vídeo
Moran (1995) apresenta propostas de utilização de vídeo em sala de aula, e algumas delas poderiam ser utilizadas em um programa EAD. Veja a lista abaixo:
•    Vídeo como SENSIBILIZAÇÃO – para introduzir novo assunto, despertar curiosidades, suscitar pesquisas. Por exemplo, Avatar, na demanda de discussões sobre meio ambiente.
•     Vídeo como ILUSTRAÇÃO – para compor cenários, situar em tempo histórico, aproximar realidades distantes. Por exemplo, Alexandria, para situar as pesquisas de Hipácia no campo da Matemática, ou as alterações das relações de poder (e saber) oriundas do declínio do Império Romano.
•    Vídeo como SIMULAÇÃO – para simular situações de perigo, evitar custos, reduzir tempo. Representar cenários e sistemas completos, como por exemplo o vídeo Tous à orbite!, que apresenta os movimentos da Terra e as relações estabelecidas por estes em nossa vida cotidiana.
•    Vídeo como CONTEÚDO DE ENSINO – informando sobre tema específico ou permitindo abordagens interdisciplinares. Repete-se a indicação anterior (Tous à Orbite) e indicamos  todos os episódios do Telecurso 2000.
Embora os exemplos citados sejam originários da TV ou do cinema, haveria impedimentos de que fossem utilizados em ambientes EAD? Outros endereços online, tais como o YouTube, ou o Netflix podem se configurar como repositórios para arquivos de vídeo, em paralelo ao ambiente de um curso virtual? A segunda questão parece responder à primeira…

Interações a partir de vídeos
Para garantir uma aprendizagem dos conteúdos expostos em um filme o professor tutor deve propor atividades interativas seguindo as mesmas orientações apresentadas por Costa e Marins (2012) em relação à leitura de um texto escrito. O aluno lê, vendo. O vídeo é um tipo de texto, mais rapidamente apreendido, mas que em função educativa também necessita de elaborações posteriores.
Uma das principais formas de aprender com o vídeo é com o desenvolvimento de análises. Podemos listar cinco tipos de análise (adaptado de Moran, 1995):
•    Geral: aspectos positivos e negativos
•    De conteúdo: conceitos e ideias principais que passa
•    De implicações: significados e consequências dos assuntos tratados no filme
•    De forma: recursos utilizados pelo autor para dar ênfase a determinados aspectos do vídeo
•    De valores: quais valores são passados através do tema do filme, de seus personagens, das ações que têm diante das situações propostas.

Produção de vídeos por professores
É possível que os próprios professores desenvolvam vídeos para apresentação de conteúdos.
A roteirização é passo fundamental para o desenvolvimento de um conteúdo em vídeo. Um roteiro prevê cenários, personagens, falas, tomadas de cena, etc. A partir do roteiro serão previstos tempos, materiais a serem utilizados, custos, etc.
Os vídeos podem ser editados em aplicativos dos próprios sistemas operacionais ou em outros  disponibilizados gratuitamente na forma on line, como o Windows Live Movie Maker, e o KDEenlive . Também existem diversos tutoriais em vídeo sobre a utilização destes aplicativos, bastando uma pesquisa no próprio YouTube para encontrá-los.
O vídeo abaixo foi desenvolvido para utilização com alunos da EJA na Escola Estadual Manuel de Abreu, uma interferência em função de fatos ocorridos no ano de 2010 que apresentavam demanda pedagógica.  Elaborado em pouquíssimo  tempo, a partir de vídeos gravados com uma filmadora digital doméstica, combinados com recursos de som e imagens disponíveis na internet , sendo estas editadas no aplicativo Paint (Windows) e o vídeo final no WMM (Windows). A maior dificuldade foi encontrar recursos de imagem compartilhados através de licença que se adequassem às perspectivas do roteiro, mesmo consultando sites como Domínio Público ou Wikimedia Commons à época de elaboração do vídeo. O vídeo foi apresentado para os alunos da Fase II e posteriormente o professor de sala de aula produziu texto coletivo sobre o tema.


Produção de vídeos por alunos
Fresquet (2005) apresenta uma proposta de trabalho com os alunos, baseada em vivências desenvolvidas a partir das experiências cinematográficas que contribuirão para a formação de novos cidadãos. Com sessões de exibição ou com a realização dos minutos Lumière (consiste em filmar um plano fixo, sem edição, durante um minuto, como os ancestrais inventores do cinematógrafo), é possível experimentar as linguagens cinematográficas e um novo olhar sobre os audiovisuais.
Para conhecer a proposta de Fresquet, clique aqui.

Compartilhamento de vídeos
O YouTube, como repositório mais popular de vídeos na internet, é um dos mais utilizados por instituições educativas e professores para divulgação de trabalhos, com produções originais ou compilações de origens diversas.
Uma das características mais interessantes do site é a possibilidade de comentar o vídeo, o que possibilita a criação, por parte da instituição ou do professor autor (divulgador) a produção de uma espécie de fórum informal para as discussões dos conteúdos de determinado vídeo, ampliando discussões que se dariam exclusivamente no ambiente de aprendizagem.
Como exemplos de instituições que compartilham conteúdos no YouTube estão:
Telecurso e TV Escola. E canais de vídeo de professores como o do Professor Leopoldo De Meis.

Conclusão
Para fugir de uma relação passiva de expectador e assumirmos postura de leitores críticos dos vídeos enquanto produtos de mídia, precisamos educar o nosso olhar para as estratégias utilizadas em sua produção – as linguagens utilizadas para nos seduzir e conquistar. A educação do olhar pode ser desenvolvida através da observação de determinados tipo de filmes, de produtos da TV; de acordo com propósitos bem definidos, observando os conteúdos e as formas de dizê-lo, os elementos de linguagem que evidenciam leituras e outros que se escondem diante dos nossos olhos.
É preciso estar atento ao que aponta Fischer (2002), por exemplo, quanto aos modos de educar na e pela TV:

… a TV cria ou reforça  processos de inclusão e de exclusão, quanto a classe social, o gênero, etnia, geração, profissão, e assim por diante. Ou seja, a transformação de nossas vidas em espetáculo está diretamente relacionada a uma série de preconceitos, a uma série de valores e de definições a respeito do que são, por exemplo, determinados grupos na sociedade: as mulheres, os negros, os pobres, os adolescentes de classe média, os trabalhadores, etc.” (FISCHER, 2002, p 157)

O ambiente EAD é um espaço privilegiado para estas leituras, porque se apoiam em olhos coletivos, em pontos de vista diferenciados, que podem extrapolar aprendizagens básicas e construir saberes sobre formas de ver e de se ver de outras formas.
Pois é possível ler, vendo.

Referências:

COSTA, Rosa Maria; MARINS, Vânia. Ferramentas da Web 2,0 e comunidades de prática. Disponível em http://pigead.lanteuff.org/mod/resource/view.php?id=4539. Acesso em 13 jun 2012.
____________________________ . Ambientes Virtuais de Aprendizagem. Disponível em http://pigead.lanteuff.org/mod/resource/view.php?id=4540. Acesso em 13 jun 2012.
____________________________ . Interfaces. Disponível em http://pigead.lanteuff.org/mod/resource/view.php?id=4519. Acesso em  6 jun 2012

FRESQUET, Adriana. Aprender com Experiências do Cinema. Rio de Janeiro: BOOKLINK/CINEAD/LISE/FE/UFRJ , 2009.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. O dispositivo pedagógico da mídia: modos de educar na (e pela) TV. Artigo. Revista Educação e Pesquisa. São Paulo, v.28, n.1, p. 151-162, jan./jun. 2002 1 5. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ep/v28n1/11662.pdf  Acesso em 13 jun 2012.

MORAN, José Manuel. O Vídeo na Sala de Aula. Artigo. Revista Comunicação & Educação. São Paulo, ECA-Ed. Moderna, [2]: 27 a 35, jan./abr. de 1995. Disponível em http://www.eca.usp.br/prof/moran/vidsal.htm. Acesso em 14 jun 2012.

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2 respostas para Vídeo em salas de aulas presenciais e virtuais

  1. Vera Lucia Soares [APcgr211] disse:

    Li atentamente e esse material me acrescentou muito. Parabéns pela produção. Vera

  2. Camila Assis disse:

    Olá Conceição, excelente contribuição! Devo concordar com a Vera, esse material me acrescentou muito.

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